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Prefácio
A poesia do Jorge permite o contacto com uma certa conotação trágica que nos transporta, penso que sem grande esforço, a uma representação mítico-poética do poeta.
Na sua poesia, e no caso particular do livro há pouco tempo editado, encontramos a representação de uma vida, de um autor, não no sentido da construção de um grande obra poética, mas, talvez, no sentido do poeta trágico-moderno de que Rimbaud continua a ser o modelo inultrapassado, em que nos defrontamos sempre com uma determinada tensão, mesmo explosiva, entre a vida e a poesia.
Talvez o poeta (o Jorge) venha construindo aquilo a que chamaria a ficção de um poeta que produz (cria) uma atracção para a definição de um horizonte em que se quer ver situado – no essencial, ser ele próprio. Na sua poesia está presente um espaço-tempo que se pode definir por um determinado efeito de excesso – a tradição da aventura surrealista ou surrealizante – a que ele, naturalmente, não consegue escapar, e a utilização de palavras repletas de evocações várias, provenientes do seu universo mais intimista.
Na sua poesia é possível vislumbrar a marca distinta e pessoal do poeta para quem o poema não é um objecto autónomo e perfeito, mas algo que decorre do próprio fluir da vida, de uma temporalidade que é a experiência vivida, um caminho ligado a uma certa fulguração da imagem e ao entendimento do poema como inauguração de uma outra realidade.
“Se escrever é fazer-se eco do que não pode deixar de falar”, segundo Maurice Blanchot, uma das referências literárias do poeta, assim como uma muito especial lista de poetas franceses (e pensadores) onde constam nomes como Baudelaire, Rimbaud, Michaux, Éluard, René Char, no Jorge encontramos, forçosamente, a faceta muito especial de poeta pensante (característica da sua personalidade e da sua formação académica – a filosofia), ou seja, o poeta detentor da palavra que não pode deixar de pensar. Foucault (outra das suas referências, neste caso, filosófica), interroga a condição de não conhecermos apenas o uso da palavra enquanto comentário. O Jorge comprova esta condição ao assumir a linguagem poética como acto hermenêutico, uma tradução que faz falar o excesso enquanto latência do mundo – poder-se-ia afirmar que a obra poética é ela mesma a exegese, comungando, deste modo, com a visão de um outro grande nome da poesia portuguesa – António Ramos Rosa.
A poesia do Jorge manifesta uma evidência em que somos confrontados, talvez com alguma ousadia, com um “um desamparo quase trágico”, não se sabendo a que espaço pretende ancorar, um lento declínio onde a resistência do criador, ciente da degradação e da morte, tem na palavra o meio privilegiado da insurreição. É o uivo trágico do homem, a vigência do pulmão da existência lírica e dramática sem a qual a maioria dos homens não conseguiria sequer respirar. Uma respiração diferente que nos eleva às alturas, no voo interior do universo pessoal de um cérebro “infinito” povoado de inúmeras imagens.